Estudo da UFRN revela as contradições das obras hídricas no Semiárido

Um estudo realizado pelos geógrafos Emily Kadidja de Medeiros e Leandro Vieira Cavalcante, do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, campus Caicó, revelou que o acesso à água no Semiárido Brasileiro constitui um desafio histórico marcado por desigualdades sociais, políticas e territoriais que extrapolam as limitações climáticas. Nesse contexto, salientam os autores, as obras hídricas, especialmente as barragens, assumem um papel central na organização do território e no enfrentamento da irregularidade hídrica.

Todavia, o estudo conclui que, embora, as barragens sejam estratégicas para o sistema hídrico regional, sua gestão e distribuição dos usos da água reproduzem desigualdades históricas, privilegiando setores produtivos em detrimento do abastecimento das populações rurais.

No Seridó Potiguar, por exemplo, uma região marcada por longos períodos de estiagem, tais obras desempenham papel estratégico no abastecimento humano, na dessedentação animal e no suporte às atividades produtivas. É nesse cenário que se insere a Barragem Passagem das Traíras, localizada entre os municípios de São José do Seridó e Jardim do Seridó, inaugurada em 1994 com capacidade de 48 milhões de m³ de água.

A Barragem Passagem das Traíras tornou-se um exemplo emblemático das promessas e contradições que marcam a chamada “indústria da seca”, ao mesmo tempo em que ilustra uma infraestrutura essencial que, com o tempo, passou a apresentar vulnerabilidades, ressaltam os pesquisadores.

Apartir de um estudo de caso na Barragem Passagem das Traíras, a pesquisa considerou seus aspectos históricos, técnicos e funcionais, bem como suas implicações socioespaciais para as comunidades rurais do entorno. A pesquisa evidenciou que a interdição do reservatório entre 2018 e 2019, por exemplo, revelou fragilidades estruturais e institucionais, agravando a insegurança hídrica das comunidades dependentes. Com a interdição da Barragem, as famílias passaram a depender novamente de carros-pipa, poços rasos com altos índices de salinidade e estratégias emergenciais de abastecimento. Pequenas hortas familiares foram interrompidas, a criação animal sofreu redução e diversas rotinas produtivas foram desorganizadas.

Atualmente, depois de concluídas as obras de reforma da Barragem, em 2025, a  Passagem das Traíras opera em volume morto, o que evidencia que a infraestrutura depende fortemente do comportamento pluviométrico, expondo as comunidades à sazonalidade extrema.

Os autores ressaltam outro aspecto relevante identificado nos resultados da pesquisa, que diz respeito às dimensões socioculturais da água. Em Quixabinha e Barra do Rio, comunidades localizadas nos arredores da Barragem, a pesca artesanal desempenhava papel complementar de renda e de identidade comunitária. Com a interdição e a diminuição do espelho d’água, essa prática foi profundamente afetada, alterando modos de vida transmitidos entre gerações. Além disso, as mulheres – principais responsáveis pela gestão doméstica da água – tiveram sua carga de trabalho aumentada, percorrendo distâncias maiores para buscar água em fontes alternativas, carregando recipientes e criando estratégias de economia doméstica.

De maneira geral, os dados analisados pelos autores mostram que a Barragem Passagem das Traíras representa um conjunto de contrariedades típicas da gestão da água no Semiárido: infraestrutura crucial, mas com acesso desigual; construção tecnicamente sólida, porém operacionalmente frágil; reservatório de uso público, mas explorado de maneira desigual por diferentes setores econômicos; promessa de cidadania, mas geradora diária de inseguranças; e a representação de progresso, mas produtora de vulnerabilidades territoriais. Essas contradições, de acordo com os autores, confirmam que o acesso à água na região não é determinado apenas pela disponibilidade natural, mas por relações de poder, disputas políticas e desigualdades históricas – reafirmando a tese de que a injustiça hídrica é produzida socialmente, e não simplesmente decorrente da seca

A pesquisa concluiu que as barragens do Semiárido, a partir do exemplo da Barragem Passagem das Traíras, devem ser compreendidas como um dispositivo sociotécnico que articula poder, território e água, sendo necessária a superação do modelo hidráulico excludente por meio de uma gestão participativa, equitativa e orientada pela justiça hídrica.

A pesquisa, publicada na revista International Journal Semiarid, pode ser consultada na íntegra através do seguinte link: https://journalsemiarid.com/index.php/ijsa/article/view/581/

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